uma coisa que eu não gosto é que leiam meu jornal por cima do meu ombro enquanto eu o leio. mãe, filho, sogro, qualquer que seja a criatura: ganha na loteria do meu ódio quando faz um negócio desse. eu embrulho o diário e meto na cara de quem estiver fazendo. ter um papagaio desses lendo ao mesmo tempo que eu, a mesma linha, a mesma letra, é - pelo menos penso que se assemelha - como se um obsessivo compulsivo por fechaduras descobrir que a porta do banheiro está destrancada durante uma cagada. o cara deve travar. e eu não consigo mais ler. cinco vezes a mesma sentença e nada.
o metrô é o inferno. tem sempre um puto que, não contente em só ler o jornal, comenta com um puto muito mais puto e incoerente que ele mesmo as matérias da página que está aberta. outro dia, na estação da cidade nova, um pivete veio correndo e, sem querer, derrubou o meu jornal. mas foi sem querer, não me abalei - pelo menos não com isso. enquanto eu de joelhos organizava os cadernos ela, aristocrata de subúrbio (julgo pelo batom do dente), comentava comigo sobre a manchete principal que ela nem ao menos ajudava à recolher do chão. “esses índios e essa hidromassagem, hidro-eletrônica, esse bacião aí! isso já encheu o saco!”. quase enrolei e meti na cara dela o jornal recém-organizado, mas percebi. percebi que nem sabia que manchete era. tamanha a preocupação e o policiamento do meu jornal que eu não tinha conseguido ler nada.
cinco pessoas, cinco sentenças e nada.
só queria envelhecer com calma, vendo as manchas de sol na pele grossa se transformarem em manchas senis na pele de papiro com muita calma. sem complicação.
- enjoei da sua cara.
- eu também. e enjoei também da sua alma. enjoei na alma.
- você não quer lidar com a gente, você não liga mais, não conversa comigo. de manhã quando eu saio você ainda dormindo e quando eu chegou a noite preferia que você também estivesse, que daí eu evitava esse silêncio desgraçado e essa cara de quem foi torcida até ficar vazia, sei lá. você se afogou numa camada de você mesma e eu não sei se consigo lidar com isso. não que eu precise, eu já tenho os meus problemas e, como você nem me olha, assumi que não quer que eu te ajude com os teus, então foda-se. preguiça de mim, da gente, dos nossos problemas, não me ouve, só dorme e cala, vai embora e me poupa dos teus dramas.
- sinta-se poupado. não há de quê.
daquelas coisas simples que se tornam empolgantes e pegam a gente despreparado com o joelho frouxo. eu só queria saber o nome dela, perguntei e ela jogou na minha cara. sem nem me preparar, esperar eu subir a guarda. começou a me explicar a origem do nome, a numerologia, número da alma, da personalidade, do destino, a desvantagem de não ter apelido que coubesse, como o meu era bem mais bonito, e eu sem entender nem ouvir nada do que ela tentava explicar. meu joelho ainda estava frouxo e agora eu suava entro os dedos do pé esquerdo que, de maior que o outro e devido ao nervosismo começou a apertar dentro do sapato com o som da voz dela. foi daqueles nomes que entrou em mim, limpou, varreu, me deixou com remorso, que me deixou com a dúvida, que dúvida chata, mas será que, né, ela batizaria a filha dela com o próprio nome? será que ela me daria uma filha com aquele nome? eu ia gostar de apresentá-la, pegar pela mão e chamá-la pelo nome, dizer para todo mundo que ela estava comigo. eu nesse devaneio e ela me explicando que o nome dela não era tão bobo quanto parecia, não que eu achasse, quem disse foi ela, e disse também que a mãe foi aconselhada por um orixá que disse que se a batizasse com esse nome ia acompanhá-la e dar sorte sempre que preciso, mas eu não entendia disso, só fiquei fingindo interesse enquanto ela dizia também de atrizes e músicas e poemas e livros com o nome e eu só pensando que puta merda, que coisa linda. achava graça ao explicar que ele contrapunha ao que ela era quando menor, suja, desleixada, brincando como menino, e eu lá, fico até com vergonha de te dizer de novo, mas eu lá embasbacado. se ao menos eu não tivesse puxado papo, se eu não tivesse atentado para a graça dela, agora não estava assim. daquelas coisas que te fazem sentir menos mas que te aumentam porque te varrem, te limpam, te mudam.
dor pela vida
que não é minha
que muda a minha
que é o dobro da minha
dor que era para ser fim
fim que é novo começo
no meu ninho ficávamos todos todo o tempo acordados. medo de chuva, dos que eram maiores, maiores que a gente, maiores que o ninho, medo das raízes, raiz verde, raiz que apodrece, medo de fome, de sede, só medo ali. não conseguia sair tranquilo sem pensar que os outros ficariam ali sozinhos. medo justificado no dia em que voltei e não encontrei ninguém. antes de raciocinar sobre o que havia acontecido fui levado dali e nunca mais senti medo. agora dormíamos bem. sem medo de chuva, predador, não tinha nada que apodrecesse. tudo firme, metal, banquetes e bebida, sem nenhum esforço. livres nos cm² da nossa gaiola.
da minha janela tudo o que eu via era areia para baixo e pés que levitavam na altura dos meus olhos. se eu olhasse para cima via os rostos dos pés olhando de olhos fechados em minha direção. na areia uma flores que, acredito eu, um dia já tiveram cor - rosa, vermelho, grenat, agora areia, bobinhas, jaziam ali. também me olhavam de olhos fechados como quem me diz que “você é a próxima” e não há muito o que fazer. acreditando, eu continuava olhando pela janela. mal sabiam que seria um alívio.
o incômodo em ser um paradoxo está nas manias que a gente não consegue deixar. eu, por exemplo, ando batendo o pé. dentro de casa é para sentir o baque oco do chão debaixo do meu pé. na rua é para sentir a poeira sendo chutada ao mesmo tempo em que eu quase escorrego nela. em chão de madeira, pelo toc toc. na pedra, pelo estalar do chinelo. no mais, para eu mesma saber que eu estou passando por aqueles lugares, para eu me ouvir. em todos os lugares, o tempo todo. e mesmo assim só eu me ouço. chego nos lugares sem ser percebida e saio dos mesmos com a mesma facilidade. ninguém me ouve. ninguém me vê. isso não me incomoda diretamente, mas por que diabos isso acontece? esse motivo sim me incomoda. quando sou percebida, me perdem com o tempo. naturalmente. barulho para provar a existência para mim mesma, silêncio confortável dos que me cercam. incomodavelmente paradoxal.
sou comum mas engano. engano quem pensa que sou ordinária, quem de mim não espera nada além do mesmo. minha alma usa renda, cordão de lágrima de nossa senhora, anel de búzio, sapato de pele. comum mesmo é quem prefere esperar de mim nada além do de sempre. comum mesmo é se enganarem achando que sou comum. por dentro meu pé é rachado, tenho cicatriz na barriga. engano achar que sou ordinária, que visto o ordinário. minha alma é montada no linho. minha alma queima quem me acha comum. me engana que eu gosto. se engana que eu gosto. por fora cara limpa. por dentro dois metros de altura, fio de conta, terço, conhecimento de velho boêmio. ordinária de sacana. ordinária a carta que me falou que não era para eu ouvir. carta conversou com a minha alma. minha alma que aprendeu e fez pro lado que dava. pro lado de dentro, pra dentro dela, dentro da alma. por fora cara limpa. quem me vê não dá nada por mim. por dentro tanta merda na cara que me passo por concubina paga. por fora, limpa. por dentro sou forte, dou rasteira, como fígado, homem, mulher. parece comum. comum, só que não. engano.
quando eu ficava entediada costumava repetir palavras avulsas até que elas perdessem o sentido. até que eu esquecesse a que elas estavam ligadas no material. até que eu não soubesse mais como pronunciá-las direito devido a perda de sentido.
você.
você.
você.
você.
você.
você.
você.
você.
você.
você.
você.
você.
vo
a dor de sofrer uma perda imaginária é ainda pior do que o sofrimento por uma não ilusória. com o pensamento ansia, tortura-se e machuca-se até a perda propriamente dita, se é que ela vem a acontecer - mas mesmo que não aconteça, a sensação se enraiza ali. toda cisma é pouca para quem cisma em anteceder desgostos. bem sei.
acabei de te perder.
Meu cabelo não estava arrumado, minha roupa não estava passada, minha sandália não estava limpa. Eu não estava “esbarrável”, estava contornável, ninguém me achava boa. Meus filhos, talvez; tive sete, algum teria que achar. Meu marido, não; desde 73 que ele não sabia quem era direito. E é por isso que eu o carrego comigo. E era ele que estava comigo quando não me achavam boa. O vestido de chitão amarrotado estava manchado, a borracha do chinelo gasta, laranja de barro, ele pendurado em mim. Eu estava corcunda, não estava bonita, ninguém me achava boa. Estudiosos, talvez; na minha casa uma vez foram para fazer uma pesquisa. Respondi tudo. Não puderam usar nada, não tinha documentos. Escreveram sobre mim. Não me deram documentos. Quem eu era? Mulher sem curvas, meu corpo era massa única, minhas pintas estavam inchadas, meu rosto estava oleoso, minha pele mais jambo que o normal, poeira e sol grudados nela. Meu suor descendo, meu homem me descendo, apoiado no meu ombro, a corcunda piorava. Ele, meu amor, coitadinho. Blusa antes social meio surrada, furada, gasta, feia, encardida. Botina da sola podre. Ele ia, eu carregava. Ele babava, eu limpava. Balbuciava, traduzia. As pessoas me ofereciam moedas. Estivessem meus sete filhos ali, me dariam eles as moedas. Mas os perdi. Não tinha para todo mundo. Não consigo nem remexer nisso. Um comia, para o outro faltava. Os que não perdi para a fome, perdi para vermes e assistentes sociais. Sobrou eu e meu homem, que nem homem sabia que era, que nem homem mais era; percebo ao dizer isso que acabei por ficar sozinha. Meu deus, ô Pai, Babá, tô sozinha? Eu e esse peso, sem ninguém, ninguém? O senhor tá aí? E ele estava. Ele estava lá. Tirou o peso das minhas costas e virou minha companhia. Nele eu me completava, não precisava de mais nada. Esqueci de tudo. Da sujeira, dos filhos, do ido homem, da fome, dos vermes, da esmola, de comer, de dormir, de viver. Ele me achava “encostável”, não cortonava, me colocou nos braços e disse que eu era boa. Ele, com certeza.